Jodaeiye Nader az Simi (A Separação)

Publicado: 05/10/2014 por Gustavo Marques em Cinema
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Eu assisti a Jodaeiye Nader az Simin (A Separação) pela primeira em 2011, mesmo ano em que foi lançado e venceu o Oscar de melhor filme estrangeiro e tantos outros prêmios. Foi o primeiro da série de grandes filmes iranianos que tenho assistido, interrompida desde Copie Conforme(2010), do Abbas Kiarostami (Taste of Cherry). Dirigido por Asghar Farhadi(About Elly), tem no seu elenco a belíssima Leila Hatami, minha musa de sempre – juntinho da Golshifteh Farahani – a medida exata da beleza das mulheres iranianas, e além de tudo, muito contundente no papel de Simin, uma mulher decidida a abandonar o Irã e a viver no exterior por estar descontente com as condições de vida no país. Simin procura o tribunal para divorciar-se do seu esposo, Naader, acusando-o de tê-la abandonado e à filha ao permiti-las partirem sozinhas para o exterior. Acontece que Naader é o único filho de um pai velho e senil que sofre de Alzheimer, incapaz de ir a qualquer lugar. A primeira cena do filme nos apresenta os rostos queixosos de Simin e Naader durante uma audiência com o juiz. Simin quer partir, Naader tem de ficar. Simin não apresenta razões fortes o bastante para convencer Naader a partir com ela. Dá-se o divórcio.

Opening-scene-of-A-Separation

Separação de casais costumam ser eventos traumáticos na vida de seus filhos. Naader e Simin são pais de uma jovem de 11 anos, Termeh, vitimada a tal ponto pelo curso dos eventos que se segue à separação, que acaba sendo forçada a mentir em juri para salvar a pele de seu pai, acreditando ser ele inocente da acusação de assassinar o bebê que estava sendo gestado por uma mulher que cuidava de seu avô. Essa tal mulher, Razieh, acusou falsamente Naader em juízo de ter matado o seu bebe em consequência de um empurrão. As mentiras se mutiplicam, envolvendo com seus tentáculos escorregadios todas as pessoas que estavam de algum modo ligada aos fatos relevantes para o caso. As premissas dos argumentos de defesa de ambas as partes são mentiras sustentas por mentiras. Ainda assim, bombardeado por mentiras, o meu senso moral me alertava para o fato de que havia uma parte que se conduzia mal, e a outra parte que de algum modo estranho, apesar de se portar como os maus, não me parecia ser como eles. Havia alguma coisa de muito importante por detrás das mentiras contadas por Naader e por sua filha Termeh.

A acusação de Razieh é um mote para retirar dinheiro de Naader que funcionaria se a mentira não fosse um tipo de mal que não resiste à redenção, pois no coração só há lugar para a verdade. Há uma linda cena onde vemos Termeh chorosa, em agonia por ter mentido para livrar o pai. É impossível não sentir compaixão por um coração que sofre por ter sido forçado a afirmar o falso, mesmo que dá boca para fora, e que sabe que mente. A mentira dita por um coração como esse é um sacrifício feito em favor da verdade. Parece paradoxal, mas é uma tese que se confirma quando descobrimos que uma mentira que é dita com a intenção de anular uma mentira maior nos encaminha para mais perto da verdade.

A Separation

Se houveram vítimas reais em todo o caso, sem dúvida a Termeh foi a maior delas. A criança sofre em silêncio ao longo de todo o filme, a espera de que o litígio entre seus pais encontre um desfecho favorável aos seus anseios de continuar sendo parte de uma família. No entanto, a descrença de Simin em Naader leva a relação entre ambos ao limite do desgaste, e a separação chega a seu termo. Mas e quanto a verdade, onde ela se oculta em meio a tantas mentiras? No coração de Termeh, que experimentou a humilhação da mentira sem ser tocada por sua imundície, ainda que larga medida da sua felicidade estivesse em jogo.

Ao fim da história, Termeh teria de decidir com quem ficaria após a separação. É chegado então o momento de proferir a sentença final. Com quem vocês pensam que a Termeh escolheu ficar?

– Cainã Silva Coutinho

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